no domingo passado celebrou-se a Páscoa. talvez te recordes que não professo nenhuma religião, o que torna estes feriados em celebrações da família, em que o único elemento sagrado são os laços que soubemos preservar e cultivar ao longo destes anos, apesar das discórdias. em 2020, o almoço de Páscoa sofreu algumas alterações, com as redes sociais e as câmaras dos telemóveis a possibilitar o convívio familiar que vamos lamentando não poder ter.
em 2018, por esta altura, estava em Idanha-a-Nova, na Senhora do Almortão. há anos que planeávamos esta viagem, e embora a proximidade ao local fosse grande, e a tradição sobejamente conhecida, nenhum de nós tinha ainda assistido às missas e festejos dedicados a esta linda raiana.
escolhemos com cuidado as horas a que estaríamos no local, onde almoçaríamos, onde pararíamos antes de recolher a casa. soube então que ela também iria.
um nó no estômago.
há meses que não a via, e embora o carinho persistisse, não conseguia medir com precisão a reacção que já se formava no meu inconsciente. ainda pesavam algumas das palavras mais duras que me lançou. não sei se ela ainda digeria o distanciamento que forcei entre nós.
aprendi que, em tudo na vida, é preciso deixar que as horas se desenrolem com a sua velocidade irrepetível, nem sempre podemos ou queremos prever o que, e quem, aparecerá à porta dos dias.
ela não apareceu.
o tempo soubera calcular o que eu não entendera.
ela surgiu noutro dia, de maneira completamente inesperada, no final do meu caminho, e ainda hoje essa moldura se revela diante de mim, tantas e tantas vezes, quando alguém menciona reencontros, sortes, e sinais por descodificar.
todas essas vidas que aconteceram por conta de uma pessoa que se intrometeu em todas as vias que havia desenhado. no meu agnosticismo, ela acrescentou mais pontos de interrogação e horas de reflexão, em profunda oração. ao meu desespero, ela trouxe poesia, palavras para beber, para que nunca murchasse a flor que cativou. nela vi o espelho do que sou, mesmo que à primeira vista sejamos tão diferentes quanto o silêncio é do ruído.
...
talvez que na primeira carta te tenhas interrogado sobre o que ando a pensar concretamente. ando a deixar-me levar pelas saudades que tenho de abraçar e de olhar nos olhos estas pessoas, mesmo que só o faça de vez em quando, subtilmente.
hoje falei-te sobre ela, por ser a última pessoa a quem confiei tudo, e que me marcou para lá do que consigo explicar com estas palavras comuns, e por me comover sempre com o seu cuidado constante. imagino que ela, às vezes, fique exasperada, mas somos tão mais parecidas do que ela crê.
espero que te encontres bem, e que estejas a pensar nos outros também. que o trabalho não te engula e te pressione e te abandone ao vazio.
Um beijo
Sem comentários:
Enviar um comentário