terça-feira, 28 de abril de 2020

3.

uma das divisões desta casa, à qual chamamos biblioteca, tem umas janelas grandes, que vão quase desde o tecto até ao chão. ao fim da tarde, o sol desce e dá-nos uma luz muito bonita, uma sombra laranja que cobre a madeira rente ao vidro.
há jantar a essa hora, resguardada mas recebendo, e sendo inspirada por, toda essa iluminação. foi balbuciando entre colheradas que, subitamente, me lembrei dela.
bastou uma palavra: grande. assim que a pronunciei, dei por mim fechada naquela sala minúscula, depois de ter almoçado sem vontade o meu prato favorito, cozido à portuguesa, a olhar para as minhas mãos e a ouvi-la. tudo o que ela dizia, era com tal convicção... qualquer pessoa acreditaria naquelas frases benditas, banhadas de optimismo luzidio. eu não lhe dei ouvidos, e até me esqueci dessa tarde, de tal modo que quando a memória pousou nos meus olhos, não soube de onde, de que ano, em que vida, a tinha ido buscar.
passou mais de uma década. sem salas minúsculas, eu partilhando as minhas conquistas com uma figura frequentemente ausente. com ela aprendi que há pessoas que só podemos amar olhando para trás. temos somente passado.

Ne me demandez pas pourquoi
Quand vient l'hiver et le grand froid
On voudrait tous mourir
Comme si c'était la première fois
Que la nuit tombait, dans nos bras
On voudrait tous partir
Retrouver le soleil
Qui nous manque
Qui va brûler toutes nos peines

...

tenho pensado em escrever sobre ele, mas não podia enquanto não partilhasse este momento absolutamente surreal que me aconteceu há dias. juro-te que não me lembrava de estar contigo nessa tarde, e pesou tanto no meu peito essa recordação inesperada. meu Deus, como eu gostava de viver tudo outra vez e estar lá, ouvir-te de novo, absorver cada palavra. só me lembro de uma frase.
queima, queima, como o sol.
sobre ele, conto-te noutro dia desta quarentena, que se estenderá por mais um mês, se tudo correr mal.
não me leves a mal. nada senão gratidão.

beijo

terça-feira, 14 de abril de 2020

2.

no domingo passado celebrou-se a Páscoa. talvez te recordes que não professo nenhuma religião, o que torna estes feriados em celebrações da família, em que o único elemento sagrado são os laços que soubemos preservar e cultivar ao longo destes anos, apesar das discórdias. em 2020, o almoço de Páscoa sofreu algumas alterações, com as redes sociais e as câmaras dos telemóveis a possibilitar o convívio familiar que vamos lamentando não poder ter.
em 2018, por esta altura, estava em Idanha-a-Nova, na Senhora do Almortão. há anos que planeávamos esta viagem, e embora a proximidade ao local fosse grande, e a tradição sobejamente conhecida, nenhum de nós tinha ainda assistido às missas e festejos dedicados a esta linda raiana.
escolhemos com cuidado as horas a que estaríamos no local, onde almoçaríamos, onde pararíamos antes de recolher a casa. soube então que ela também iria.
um nó no estômago.
há meses que não a via, e embora o carinho persistisse, não conseguia medir com precisão a reacção que já se formava no meu inconsciente. ainda pesavam algumas das palavras mais duras que me lançou. não sei se ela ainda digeria o distanciamento que forcei entre nós.
aprendi que, em tudo na vida, é preciso deixar que as horas se desenrolem com a sua velocidade irrepetível, nem sempre podemos ou queremos prever o que, e quem, aparecerá à porta dos dias.
ela não apareceu.
o tempo soubera calcular o que eu não entendera.
ela surgiu noutro dia, de maneira completamente inesperada, no final do meu caminho, e ainda hoje essa moldura se revela diante de mim, tantas e tantas vezes, quando alguém menciona reencontros, sortes, e sinais por descodificar.
todas essas vidas que aconteceram por conta de uma pessoa que se intrometeu em todas as vias que havia desenhado. no meu agnosticismo, ela acrescentou mais pontos de interrogação e horas de reflexão, em profunda oração. ao meu desespero, ela trouxe poesia, palavras para beber, para que nunca murchasse a flor que cativou. nela vi o espelho do que sou, mesmo que à primeira vista sejamos tão diferentes quanto o silêncio é do ruído.

...

talvez que na primeira carta te tenhas interrogado sobre o que ando a pensar concretamente. ando a deixar-me levar pelas saudades que tenho de abraçar e de olhar nos olhos estas pessoas, mesmo que só o faça de vez em quando, subtilmente.
hoje falei-te sobre ela, por ser a última pessoa a quem confiei tudo, e que me marcou para lá do que consigo explicar com estas palavras comuns, e por me comover sempre com o seu cuidado constante. imagino que ela, às vezes, fique exasperada, mas somos tão mais parecidas do que ela crê.
espero que te encontres bem, e que estejas a pensar nos outros também. que o trabalho não te engula e te pressione e te abandone ao vazio.
Um beijo

sábado, 11 de abril de 2020

1.

faz agora um mês que estou em casa. os dias repetem-se, uma lista infinita das mesmas tarefas sempre por cumprir. a casa parece esforçar-se para que não me falte ocupação por estes dias. são 03 da manhã e eu não quero dormir, não vá a doença irromper casa adentro e eu desprevenida a ressonar.

...

arranjei esta noite para te escrever. deixei o papel e a caneta para trás, embora tivesse prometido ao meu professor de latim que nunca abandonaria estas ferramentas em detrimento do computador e do seu ecrã brilhante. cá estou eu, em frente à tela com o cursor a piscar, aproveitando a melancolia da madrugada para ouvir música e tentar dizer-te alguma coisa.
acho que me fazia bem criar um diário destes dias de isolamento. não é verdade que esteja isolada, temos tantos meios para nos mantermos em contacto, temos tantas pessoas, perto e longe, colos prontos a acolher o desespero que pode nascer por aqui. os dias são primaveris, é tempo de alegria, de sentir o sol queimar a pele, ver as plantas delirarem com a indecisão do céu, crescer entre as gotas de chuva e de sol.
pensamos agora em todos os momentos que deixámos por viver e queremos correr para os braços uns dos outros. imagino que podíamos ter ido tomar o tal café, sentar numa esplanada e discorrer sobre os novos desafios que a vida nos impõe. hoje essa memória seria mais uma saudade para me manter acordada, por isso vivemos nesta corda bamba do que não aconteceu e nos tira o sono, e do que se acontecesse nos deixaria insones.
não sabemos estar com as nossas dores. tenho dito que esta é a altura para fazermos as pazes, para nos reconciliarmos. mas isto é de uma dificuldade tremenda, sabes?
há quase 10 anos mergulhei numa espécie de isolamento, distante de todos quanto amo. saía para ir às compras e pouco mais, às vezes ia ao cinema. não sabia falar a língua dos que me rodeavam, arranhava muito ao de leve aquele ritmo. nesses meses perdoei as minhas fragilidades, remendei o passado, soube ficar em paz com tudo o que me deste e tiraste repentinamente. não me lembro sequer do que dizias, leio o que escrevi para ti e tudo perdeu o sentido.
as memórias que carrego agora são tão boas que me resta gerir esta sensibilidade extrema.
tento entender a profundidade a que me deixo tocar pelos outros. tento compreender porque é que no silêncio todas estas sombras se aproximam se não as amei.
é aqui que esbarro com esta incerteza. talvez tenha amado. é possível que ao consentirmos que nos vejam nus e nos agitem o corpo meio morto, estejamos a amar. são todas as nossas entranhas a ser remexidas, viradas do avesso, provocadas por uma pessoa só. bouleversée.


...

já divaguei demasiado para uma primeira entrada de um suposto diário, com o seu quê de missiva dirigida à mesma pessoa de sempre, pois não sei dirigir as minhas palavras a mais ninguém. perdoarás, estou certa, este abuso a que te sujeito e que é, tão somente, de razão prática. és tu que te prestas a este papel literário e mais ninguém.
até amanhã.