sábado, 27 de fevereiro de 2021

11.

 olá C.,

de novo, confinadas. 

este isolamento está a ser muito duro para mim. estou exausta e não sei onde alojar o meu desalento. 

lembro-me dos dias passados, isolada, na casa em Benfica. saía às três ou quatro da tarde para comer qualquer coisa, beber um café e fumar um cigarro. fingia que passeava e o descontentamento acompanhava-me. 

finalmente li um livro. que parto difícil! 

sinto em mim a voracidade de leitora, a curiosidade sobre os livros a espreitar. tenho de aproveitar esta onda de inspiração, há tanto por ler.

o embate lento nos trinta chega para nos recordar, bem como a televisão, os jornais, a torrente de informação inútil, misteriosa, deprimente que nos engolfa, que não existe imortalidade. 

será que a insistência de existência das memórias nos torna imortais? os diários, as páginas rabiscadas, as letrinhas espremidas umas contra as outras para caber num envelope, os poemas que vão surgindo... caberão nos nossos arquivos particulares?


penso em voltar a estudar. mas não estou certa dessa decisão.


un câlin virtuel *