querida,
hoje preciso de chorar. que onda nos engole e nos entorpece, a força destruidora da memória.
escrevo a uma pessoa, escrevo porque sonho e porque é real.
querida,
hoje preciso de chorar. que onda nos engole e nos entorpece, a força destruidora da memória.
querida.
estou farta de escrever sobre mim, sobre musas, sobre uma vida de sensações que apenas sobrevive na imaginação.
gostaria de saber escrever uma história, começar uma narrativa do 0, dar-lhe uma forma assim e assado, e terminar com lágrimas e sorrisos, despertar alguém dentro de si. como eu. despertar-me também.
será que já leste Annie Ernaux?
terminei hoje Uma mulher... fiquei muito impressionada. prefiro continuar a ler para não enfrentar os meus pensamentos aterradores, sobre a morte.
querida C.,
às vezes tenho muitas saudades e desejo repetir tudo. também penso em telefonar-te, e ligar a outras pessoas, mas não sei se quero verdadeiramente.
hoje vi-a nos meus sonhos, tão bonita, tão leve, tão singular.
C., tenho estado muito triste. quem me dera ter-te à minha frente e poder desabafar um pouquinho, mas com um rosto humano, e não com um écrã.
gros bisous,
R.
querida C.,
talvez veja ainda uma centelha a tentar iluminar um caminho. aprendi, nos últimos anos, que várias estradas se apresentam à nossa frente. cabe-nos escolher e, por vezes, não há diferenças substanciais entre essas vias. não é como nos contos infantis, em que os pedregulhos enormes fazem adivinhar, erroneamente, um percurso mais tumultuoso.
às vezes a vida assemelha-se a tudo o resto que nos habita, e que já nos habitou.
daqui a uns dias serei operada. mais um obstáculo que devo enfrentar este ano. espero vir a ter algum sossego e poder aproveitar estes meus filhos, a minha juventude, os meus dias.
eles cresceram muito, e eu também. li algures que o que os filhos não sabem, é que os pais estão a crescer ao mesmo tempo que eles. é verdade. e não deixamos de amadurecer, todos os dias aprendemos um pouco mais. nem que seja uma nova receita, um novo truque de limpeza, uma nova informação da nossa área profissional,… todos os dias sorvemos um pedaço de existência. que bom que é!
cá estou, escrevendo mais uma “gostaria-de-ser-uma-carta”. não é bem uma missiva, é o tal papel que assumiste nesse pós-pessoa.
um beijo e que fabriquemos memórias ou obra que perdure…
boa noite C.,
em abril fazia anos o amor da minha vida. planeava tudo cuidadosamente, tentava surpreendê-lo, comprava presentes caros para o mimar, achando que ele se sentiria amado, cuidado, acarinhado, dessa forma.
pelos vistos nem o amor que lhe dei, nem os presentes caros serviram para ele se sentir aconchegado comigo.
este ano não planeio dar-lhe qualquer presente. sinto-me subitamente desolada porque, pela primeira vez em 15 anos, não tenho vontade de surpreender a pessoa que, até há 1 ano, era o meu mundo. este dia de anos é mais um evento para me lembrar que perdi o homem que mais amei, que a vida nunca vai ser igual.
sinto-me muita vez culpada por pensar mal dele. por pensar que se ele não me respeitou, se não valorizou o que tinha e o que eu lhe dava, então daqui para a frente não terá mais de mim. mas uma relação não sobrevive a este desgaste, não aceita um deserto de afectos.
querida C., não sei se algum dia voltarei a amar.
Olá C.,
Deixei-te em fevereiro e não pensei mais nestas cartas. Conheci tanta dor neste último ano.
Voltei a gerar vida, perdi o amor da minha vida, nasceu a felicidade mais profunda, fiquei internada após o parto e sinto que não estive longe do fim. Continuo doente e serei operada em breve.
Estou muito cansada.
De tudo o que mais me dói é tê-lo perdido. É irrecuperável. No minuto em que a vida se estilhaça, não mais se recompõe. Eu queria ser artesã, queria ter o dom de soprar o vidro quente e moldá-lo numa nova forma. Uma nova vida.
Perde-se o amor e perde-se o amigo. Perdemo-nos também. Já não falamos com bondade. Todas as histórias de amor nos parecem falsas, como se fosse possível alguém amar tanto ao ponto de respeitar o outro. Ficamos cínicas. Deixa de existir abrigo, então fechamo-nos sobre nós próprias. Olhamos com frieza para tudo.
O afecto dele já não nos desperta qualquer emoção. A vida segue numa calma profundamente triste. A cada beijo sabemos que nada restou de uma mágoa tão grande.
Como e porquê amar alguém que nos tirou tudo, de um momento para o outro? Que nos abandonou, grávida e com uma luz de ano e meio. Fui dura, não mostrei uma única lágrima, não me lamentei, não espalhei a minha miséria. Aguentei-me firme, engolindo tantas vezes a dor, para sobreviver. Com medo de transmitir esta dor tão lacerante, nutrindo a placenta de raiva e amargura.
Mas a vida não pára e corre velozmente. Estarei eu, daqui a 10/20/30 anos, amarga, a questionar-me porque arrastei esta situação, a perguntar-me porque desperdicei tantos anos com alguém tão desrespeitador da minha dignidade?
Quando surgirão palavras bondosas, quando me oferecerei essa ternura? Para já, sou a mulher fraca que renunciou à sua força, que sacrificou a sua felicidade, para ter o que idealizei. Para ter a família, os filhos a crescer com o pai em casa, para ter uma vida a quatro como imaginei. Viverei para sempre sem amor, fugindo dos beijos e do carinho, e sem me amar também?
Esta pessoa tirou-me tudo. Sempre lhe disse que amava imenso os meus filhos, mas a minha vida era ele. Sem ele, sem direito a ser respeitada, traída, em quem poderei eu confiar, se a minha vida escapou? Tirou-me o passado, tirou-me o futuro. Nele, não sei se conseguirei confiar novamente, se me apaixonarei novamente. A outra pessoa não me posso e não me quero confiar. Era ele que eu queria. Era o amor que eu tinha e que amava profundamente que eu queria.
Só ele. E ele já não existe.
olá C.,
de novo, confinadas.
este isolamento está a ser muito duro para mim. estou exausta e não sei onde alojar o meu desalento.
lembro-me dos dias passados, isolada, na casa em Benfica. saía às três ou quatro da tarde para comer qualquer coisa, beber um café e fumar um cigarro. fingia que passeava e o descontentamento acompanhava-me.
finalmente li um livro. que parto difícil!
sinto em mim a voracidade de leitora, a curiosidade sobre os livros a espreitar. tenho de aproveitar esta onda de inspiração, há tanto por ler.
o embate lento nos trinta chega para nos recordar, bem como a televisão, os jornais, a torrente de informação inútil, misteriosa, deprimente que nos engolfa, que não existe imortalidade.
será que a insistência de existência das memórias nos torna imortais? os diários, as páginas rabiscadas, as letrinhas espremidas umas contra as outras para caber num envelope, os poemas que vão surgindo... caberão nos nossos arquivos particulares?
penso em voltar a estudar. mas não estou certa dessa decisão.
un câlin virtuel *
olá C.,
nem sei por onde começar. talvez pelo banal - trabalho presencialmente semana sim, semana não. já te disse que os transportes me angustiam imenso? penso que sim. em todo o caso, não tenho espaço mental para explorar todos os cenários possíveis de contágio em que me insiro. oiço a minha música, leio o meu livro, e evito olhar nos olhos do bicho. pode ser que ele fuja de mim.
estou a ler um livro que propõe uma série de reflexões muito interessantes sobre a memória. a memória colectiva e a individual. a inventada e a real. a que herdamos, a que vivemos e a que deixamos às gerações futuras.
é um dos meus temas preferidos, não fosse eu tão refém das minhas próprias memórias.
há uns dias procurava, nas conversas virtuais que tive, uma fotografia que tirei num dos meus locais de trabalho. estava exausta nesse dia, ainda a lidar com uma depressão que se agravou devido a uma sucessão de desilusões muito marcantes, e decidi guardar aquele instante. gosto muito dessa fotografia. tenho uma mão a tapar a cara, umas argolas muito grandes que usava na época, um ar de absoluto cansaço.
não cheguei a encontrar a fotografia nesse dia. porém, descobri um pequeno texto que ela me dedicou, há alguns anos. imediatamente, uma onda de nostalgia que me arrasta. um conjunto de sensações, quando olho para trás tenho medo de me aproximar dela e, ao mesmo tempo, quero confiar-lhe tudo.
saltei desse texto, para uma mensagem que ela me enviou. li a última frase da missiva tantas vezes, talvez tenha chorado. há muitos anos que uma pessoa não me fascinava tanto, há muitos anos que uma amizade não me assustava tanto.
via aquele texto e queria poder abraçá-la, agradecer-lhe por me ter dado palavras tão bonitas.
em sintonia, neste preciso momento de leitura e de perturbação do espírito, ela envia uma nova mensagem. quase adivinhando, pressentindo, sabendo.
às vezes brinco com a ideia de ela ter sido posta no meu caminho, da existência dela ser mais que terrena, de já nos termos conhecido anteriormente.
apesar de falar com ela quase todos os dias, tenho saudades dela. também tinha saudades tuas. e tenho saudades do meu filho quando era bebé, quando disse a primeira palavra, quando começou a gatinhar, quando caminhou há um mês.
tenho saudades da minha adolescência. de o conhecer, de me apaixonar, de amar tanto e tão profundamente, das nossas manhãs, das nossas noites, das férias de verão.
estrondosa velocidade a que o tempo passa, e pesa.
que estejas bem nesse cantinho da memória que te reservei.
um beijo enorme
hoje rezarei pelos teus amores e pelas tuas mágoas
talvez te chegue a mensagem
talvez te bata à porta
talvez não seja eu, mais uma vez
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Querida C.,
2500 casos? Temo pela minha família e, simultaneamente, levo a vida de uma maneira tão leve, que chego a esquecer esta pandemia.
Hoje tive um almoço farto e caminhei pela tarde. À noite falei com ela e deixo agora esse pequeno poema, coisa inventada à pressa. Cumpre o seu propósito.
Espero que estejas bem, que o trabalho esteja a decorrer sem grandes obstáculos, que a vida te seja também leve.
Adeus,
*