quinta-feira, 15 de setembro de 2022

17.

 querida,

 hoje preciso de chorar. que onda nos engole e nos entorpece, a força destruidora da memória. 

 

sábado, 18 de junho de 2022

16.

 querida.

 

estou farta de escrever sobre mim, sobre musas, sobre uma vida de sensações que apenas sobrevive na imaginação.

gostaria de saber escrever uma história, começar uma narrativa do 0, dar-lhe uma forma assim e assado, e terminar com lágrimas e sorrisos, despertar alguém dentro de si. como eu. despertar-me também.

 será que já leste Annie Ernaux?

terminei hoje Uma mulher... fiquei muito impressionada. prefiro continuar a ler para não enfrentar os meus pensamentos aterradores, sobre a morte.

 

sábado, 21 de maio de 2022

15.

 querida C.,

às vezes tenho muitas saudades e desejo repetir tudo. também penso em telefonar-te, e ligar a outras pessoas, mas não sei se quero verdadeiramente.

hoje vi-a nos meus sonhos, tão bonita, tão leve, tão singular. 

C., tenho estado muito triste. quem me dera ter-te à minha frente e poder desabafar um pouquinho, mas com um rosto humano, e não com um écrã.


gros bisous,

R.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

14.

 querida C.,

talvez veja ainda uma centelha a tentar iluminar um caminho. aprendi, nos últimos anos, que várias estradas se apresentam à nossa frente. cabe-nos escolher e, por vezes, não há diferenças substanciais entre essas vias. não é como nos contos infantis, em que os pedregulhos enormes fazem adivinhar, erroneamente, um percurso mais tumultuoso.

às vezes a vida assemelha-se a tudo o resto que nos habita, e que já nos habitou.

daqui a uns dias serei operada. mais um obstáculo que devo enfrentar este ano. espero vir a ter algum sossego e poder aproveitar estes meus filhos, a minha juventude, os meus dias.

eles cresceram muito, e eu também. li algures que o que os filhos não sabem, é que os pais estão a crescer ao mesmo tempo que eles. é verdade. e não deixamos de amadurecer, todos os dias aprendemos um pouco mais. nem que seja uma nova receita, um novo truque de limpeza, uma nova informação da nossa área profissional,… todos os dias sorvemos um pedaço de existência. que bom que é!

cá estou, escrevendo mais uma “gostaria-de-ser-uma-carta”. não é bem uma missiva, é o tal papel que assumiste nesse pós-pessoa.

um beijo e que fabriquemos memórias ou obra que perdure…

terça-feira, 12 de abril de 2022

13.

 boa noite C.,

em abril fazia anos o amor da minha vida. planeava tudo cuidadosamente, tentava surpreendê-lo, comprava presentes caros para o mimar, achando que ele se sentiria amado, cuidado, acarinhado, dessa forma.

pelos vistos nem o amor que lhe dei, nem os presentes caros serviram para ele se sentir aconchegado comigo.

este ano não planeio dar-lhe qualquer presente. sinto-me subitamente desolada porque, pela primeira vez em 15 anos, não tenho vontade de surpreender a pessoa que, até há 1 ano, era o meu mundo. este dia de anos é mais um evento para me lembrar que perdi o homem que mais amei, que a vida nunca vai ser igual.

sinto-me muita vez culpada por pensar mal dele. por pensar que se ele não me respeitou, se não valorizou o que tinha e o que eu lhe dava, então daqui para a frente não terá mais de mim. mas uma relação não sobrevive a este desgaste, não aceita um deserto de afectos. 


querida C., não sei se algum dia voltarei a amar.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

12

 Olá C.,

Deixei-te em fevereiro e não pensei mais nestas cartas. Conheci tanta dor neste último ano. 

Voltei a gerar vida, perdi o amor da minha vida, nasceu a felicidade mais profunda, fiquei internada após o parto e sinto que não estive longe do fim. Continuo doente e serei operada em breve.

Estou muito cansada. 

De tudo o que mais me dói é tê-lo perdido. É irrecuperável. No minuto em que a vida se estilhaça, não mais se recompõe. Eu queria ser artesã, queria ter o dom de soprar o vidro quente e moldá-lo numa nova forma. Uma nova vida. 

Perde-se o amor e perde-se o amigo. Perdemo-nos também. Já não falamos com bondade. Todas as histórias de amor nos parecem falsas, como se fosse possível alguém amar tanto ao ponto de respeitar o outro. Ficamos cínicas. Deixa de existir abrigo, então fechamo-nos sobre nós próprias. Olhamos com frieza para tudo. 

O afecto dele já não nos desperta qualquer emoção. A vida segue numa calma profundamente triste. A cada beijo sabemos que nada restou de uma mágoa tão grande. 

Como e porquê amar alguém que nos tirou tudo, de um momento para o outro? Que nos abandonou, grávida e com uma luz de ano e meio. Fui dura, não mostrei uma única lágrima, não me lamentei, não espalhei a minha miséria. Aguentei-me firme, engolindo tantas vezes a dor, para sobreviver. Com medo de transmitir esta dor tão lacerante, nutrindo a placenta de raiva e amargura. 

Mas a vida não pára e corre velozmente. Estarei eu, daqui a 10/20/30 anos, amarga, a questionar-me porque arrastei esta situação, a perguntar-me porque desperdicei tantos anos com alguém tão desrespeitador da minha dignidade?

Quando surgirão palavras bondosas, quando me oferecerei essa ternura? Para já, sou a mulher fraca que renunciou à sua força, que sacrificou a sua felicidade, para ter o que idealizei. Para ter a família, os filhos a crescer com o pai em casa, para ter uma vida a quatro como imaginei. Viverei para sempre sem amor, fugindo dos beijos e do carinho, e sem me amar também? 

Esta pessoa tirou-me tudo. Sempre lhe disse que amava imenso os meus filhos, mas a minha vida era ele. Sem ele, sem direito a ser respeitada, traída, em quem poderei eu confiar, se a minha vida escapou? Tirou-me o passado, tirou-me o futuro. Nele, não sei se conseguirei confiar novamente, se me apaixonarei novamente. A outra pessoa não me posso e não me quero confiar. Era ele que eu queria. Era o amor que eu tinha e que amava profundamente que eu queria. 

Só ele. E ele já não existe.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

11.

 olá C.,

de novo, confinadas. 

este isolamento está a ser muito duro para mim. estou exausta e não sei onde alojar o meu desalento. 

lembro-me dos dias passados, isolada, na casa em Benfica. saía às três ou quatro da tarde para comer qualquer coisa, beber um café e fumar um cigarro. fingia que passeava e o descontentamento acompanhava-me. 

finalmente li um livro. que parto difícil! 

sinto em mim a voracidade de leitora, a curiosidade sobre os livros a espreitar. tenho de aproveitar esta onda de inspiração, há tanto por ler.

o embate lento nos trinta chega para nos recordar, bem como a televisão, os jornais, a torrente de informação inútil, misteriosa, deprimente que nos engolfa, que não existe imortalidade. 

será que a insistência de existência das memórias nos torna imortais? os diários, as páginas rabiscadas, as letrinhas espremidas umas contra as outras para caber num envelope, os poemas que vão surgindo... caberão nos nossos arquivos particulares?


penso em voltar a estudar. mas não estou certa dessa decisão.


un câlin virtuel *

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

10.

 olá C.,

nem sei por onde começar. talvez pelo banal - trabalho presencialmente semana sim, semana não. já te disse que os transportes me angustiam imenso? penso que sim. em todo o caso, não tenho espaço mental para explorar todos os cenários possíveis de contágio em que me insiro. oiço a minha música, leio o meu livro, e evito olhar nos olhos do bicho. pode ser que ele fuja de mim.


estou a ler um livro que propõe uma série de reflexões muito interessantes sobre a memória. a memória colectiva e a individual. a inventada e a real. a que herdamos, a que vivemos e a que deixamos às gerações futuras. 

é um dos meus temas preferidos, não fosse eu tão refém das minhas próprias memórias. 


há uns dias procurava, nas conversas virtuais que tive, uma fotografia que tirei num dos meus locais de trabalho. estava exausta nesse dia, ainda a lidar com uma depressão que se agravou devido a uma sucessão de desilusões muito marcantes, e decidi guardar aquele instante. gosto muito dessa fotografia. tenho uma mão a tapar a cara, umas argolas muito grandes que usava na época, um ar de absoluto cansaço. 

não cheguei a encontrar a fotografia nesse dia. porém, descobri um pequeno texto que ela me dedicou, há alguns anos. imediatamente, uma onda de nostalgia que me arrasta. um conjunto de sensações, quando olho para trás tenho medo de me aproximar dela e, ao mesmo tempo, quero confiar-lhe tudo. 

saltei desse texto, para uma mensagem que ela me enviou. li a última frase da missiva tantas vezes, talvez tenha chorado. há muitos anos que uma pessoa não me fascinava tanto, há muitos anos que uma amizade não me assustava tanto. 

via aquele texto e queria poder abraçá-la, agradecer-lhe por me ter dado palavras tão bonitas. 

em sintonia, neste preciso momento de leitura e de perturbação do espírito, ela envia uma nova mensagem. quase adivinhando, pressentindo, sabendo.

às vezes brinco com a ideia de ela ter sido posta no meu caminho, da existência dela ser mais que terrena, de já nos termos conhecido anteriormente. 


apesar de falar com ela quase todos os dias, tenho saudades dela. também tinha saudades tuas. e tenho saudades do meu filho quando era bebé, quando disse a primeira palavra, quando começou a gatinhar, quando caminhou há um mês. 

tenho saudades da minha adolescência. de o conhecer, de me apaixonar, de amar tanto e tão profundamente, das nossas manhãs, das nossas noites, das férias de verão. 


estrondosa velocidade a que o tempo passa, e pesa. 


que estejas bem nesse cantinho da memória que te reservei. 

um beijo enorme


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

9.

 hoje rezarei pelos teus amores e pelas tuas mágoas 

talvez te chegue a mensagem

talvez te bata à porta

talvez não seja eu, mais uma vez 

....................................................................................


Querida C.,

2500 casos? Temo pela minha família e, simultaneamente, levo a vida de uma maneira tão leve, que chego a esquecer esta pandemia. 

Hoje tive um almoço farto e caminhei pela tarde. À noite falei com ela e deixo agora esse pequeno poema, coisa inventada à pressa. Cumpre o seu propósito. 

Espero que estejas bem, que o trabalho esteja a decorrer sem grandes obstáculos, que a vida te seja também leve. 


Adeus,

*


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

8.

estou nas escadas rolantes da estação do metro da Baixa-Chiado. é muito cedo, eu detesto manhãs e já fiz um percurso longo para poder caminhar até ao meu local de trabalho, assim que deixar estas escadas aparentemente infinitas. há um troço incrivelmente lento, aqui onde eu fiquei a pairar enquanto trocávamos mensagens.
recordo com o mesmo sobressalto, e o precipício da saudade a norte, o dia que clareou com um gosto muito de si

e eu de ti, e eu de ti. 

......................................................................................

estou de férias, depois de uma semana a tentar conjugar teletrabalho com uma constipação que me atirou para uma existência de sofá e sono. um falhanço, portanto.
nunca vi no teletrabalho uma solução, mas conhecendo agora os podres deste fiel companheiro, irrita-me profundamente que alguém possa considerar que há aqui algum futuro, senão para quem sente que é verdadeiramente produtivo e cuja vida beneficiará substancialmente de trabalhar em casa. em tempos de pandemia, trabalhamos em casa, cuidamos dos filhos em casa, arrumamos, limpamos, adiamos o trabalho e a vida simultaneamente em casa. somos forçados a ter todas as realidades enfiadas em 100m2 - quando não as encafuamos num t0. 
eu escolhi este parceiro, porque é, de momento, o mais seguro. mas, amaldiçoo esta pandemia por não me dar margem de manobra. 

hei-de voltar, e se Deus quiser, o vírus poupar-nos-á. a economia, nem tanto. 

beijo enorme

sábado, 1 de agosto de 2020

7.

passaram-se 2 meses desde a minha última entrada nesta espécie de diário, concebido para me acompanhar, e amparar, durante o isolamento que todos tivemos de provar. mais um desafio em que reprovo por negligência.
muitas vezes não me lembro deste espaço; outras tantas não tenho que dizer. 

quem diria que as nossas quatro paredes não delimitam apenas um espaço físico? 

o mundo parece agora correr para o passado, a grande velocidade. matamo-nos, ferimo-nos - que não se oiça essa conversa de progresso!
e eu penso que o primeiro humano a andar, erguendo-se do solo, terá sido pressionado por outros a não desistir da sua condição de mamífero quadrúpede. existe sempre quem prefira rastejar, olhos postos no chão, em terreno insalubre. 

todos temos um annus horribilis, e até a Terra tem direito ao seu. 

.......................................................................................................

1 volta ao sol, que alegria! que brilho irrompe pela escuridão dos dias. 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

6.

quem diria que após todos estes anos, eu ainda ficaria comovida com as memórias que ficaram aqui retidas.
decidi ser eu a construtora de um novo mundo, pegar nas ferramentas e refazer os caminhos que já existiram. 
escrevi-lhe, com tanto tempo pelo meio, sem saber bem o que lhe dizer. tentei escolher entre a minha preocupação pelo seu bem-estar, referir o que partilhou comigo... e ousei arriscar o silêncio. não fui capaz de mencionar as confissões que me perturbam até hoje e com as quais não soube lidar.

...................................................................................

noutra casa, já não habita ninguém. não preciso de procurar, o telefone não chama. fico a lembrar-me desses olhos castanhos claros transparentes, cheios de vida e de palavras que não me conseguiste dar. 
é com um arrepio que contemplo a coincidência de a ter visto, uma última vez, antes do covid-19 nos varrer para dentro das nossas habitações. 
há mais de uma década que conhecíamos apenas as nossas vozes. 

.................................................................................

a distância que sempre existiu parece ferir até à agonia, durante a pandemia. 
é um processo que ainda não compreendo. e elas desapareceram. 
não sei como voltar a elas. não sei.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

5.

saio de casa para apanhar o comboio. depois corro para o metro. finalmente, alcanço o autocarro.
é excesso de zelo meu, mas sinto como uma crueldade a obrigação de ter que o fazer. sinto como uma provocação as palavras insensíveis sobre o meu trabalho durante a quarentena.
cá dentro grito que é uma injustiça, que já chega, que estou farta desta área, dos pequenos poderes, dos pequenos egos. há dias em que me apetece desistir, deixar tudo e enfiar-me na cama, imóvel, em posição fetal. voltar a um estado despreocupado e sem razão.
algumas vezes pergunto-me o que será que terei feito para ser sempre castigada, para ser ciclicamente posta em causa, para não ter margem de manobra. porque é que me é exigido tanto e ao meu redor observo tantos, tantos, tantos, que fazem o seu caminho sem observações, sem reparos, sem condescendências.
só que já não consigo sentir revolta, só sinto vontade de chorar. já era altura de ter um pouco de paz. de ser um bocadinho reconhecida. de não me exigirem tanto, em tempos difíceis. se não exigem a outros, porquê a mim? o que é que fiz para sair na berlinda?

estou muito incomodada com isto tudo. estou enojada. desiludida. desamparada.

aconteceu-me outra vez estar distraída e recordar-me de um momento em que estavas presente. uma memória completamente rebuscada e desinteressante, em que eu te vi apenas através de um vidro. estavas abatida e eu cravada de preocupação, apavorada com os rumores que circulavam entre corredores. porém, não havia maneira de chegar até ti. nunca há. temos esta barreira invisível que sempre nos separou, e o tempo tratou de nos colocar em lugares diferentes.
não falo sobre ti, senão com quem partilha a minha vida. hoje abri uma excepção porque não me entendo entre laços. juro que os cortei e ainda assim tenho estas horas de viagem ao passado que me trazem as tuas palavras e o teu carinho.
mas ela é sábia e lê as palavras dos poetas, e desconfia que eu ainda não aceitei a tua ausência. eu estou na corda bamba, entre a saudade e o desapego.
ela entende que não há como fugir à gratidão.

...

temo que o pior esteja para vir e fico mais ansiosa do que estava até aqui. não posso voltar a trabalhar em casa, pois sei que me vão cobrar e exigir tempo que eu não tenho. não sei como tens lidado com isto tudo, mas para mim é um caos. uma podridão absoluta que toma conta do mundo quando andamos mais preocupados com a produtividade do que com a sanidade. não asseguramos nada a quem trabalha, lá fora ou cá dentro, tiramos sempre mais, sugamos sempre mais. em vez de entendermos estes fenómenos como eventos perturbadores da nossa normalidade, desestabilizadores da nossa saúde mental, tentamos destruir com mais brutalidade o pouco que resta dos nossos irmãos. é verdadeiramente repugnante, esta indiferença com que nos olhamos e nos sentimos. não existem pessoas, existem máquinas descartáveis, que podemos desgastar até à inutilidade.
espero que não te sintas assim.
beijo enorme de alguém que se sente tão pequenina.