quarta-feira, 10 de junho de 2020

6.

quem diria que após todos estes anos, eu ainda ficaria comovida com as memórias que ficaram aqui retidas.
decidi ser eu a construtora de um novo mundo, pegar nas ferramentas e refazer os caminhos que já existiram. 
escrevi-lhe, com tanto tempo pelo meio, sem saber bem o que lhe dizer. tentei escolher entre a minha preocupação pelo seu bem-estar, referir o que partilhou comigo... e ousei arriscar o silêncio. não fui capaz de mencionar as confissões que me perturbam até hoje e com as quais não soube lidar.

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noutra casa, já não habita ninguém. não preciso de procurar, o telefone não chama. fico a lembrar-me desses olhos castanhos claros transparentes, cheios de vida e de palavras que não me conseguiste dar. 
é com um arrepio que contemplo a coincidência de a ter visto, uma última vez, antes do covid-19 nos varrer para dentro das nossas habitações. 
há mais de uma década que conhecíamos apenas as nossas vozes. 

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a distância que sempre existiu parece ferir até à agonia, durante a pandemia. 
é um processo que ainda não compreendo. e elas desapareceram. 
não sei como voltar a elas. não sei.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

5.

saio de casa para apanhar o comboio. depois corro para o metro. finalmente, alcanço o autocarro.
é excesso de zelo meu, mas sinto como uma crueldade a obrigação de ter que o fazer. sinto como uma provocação as palavras insensíveis sobre o meu trabalho durante a quarentena.
cá dentro grito que é uma injustiça, que já chega, que estou farta desta área, dos pequenos poderes, dos pequenos egos. há dias em que me apetece desistir, deixar tudo e enfiar-me na cama, imóvel, em posição fetal. voltar a um estado despreocupado e sem razão.
algumas vezes pergunto-me o que será que terei feito para ser sempre castigada, para ser ciclicamente posta em causa, para não ter margem de manobra. porque é que me é exigido tanto e ao meu redor observo tantos, tantos, tantos, que fazem o seu caminho sem observações, sem reparos, sem condescendências.
só que já não consigo sentir revolta, só sinto vontade de chorar. já era altura de ter um pouco de paz. de ser um bocadinho reconhecida. de não me exigirem tanto, em tempos difíceis. se não exigem a outros, porquê a mim? o que é que fiz para sair na berlinda?

estou muito incomodada com isto tudo. estou enojada. desiludida. desamparada.

aconteceu-me outra vez estar distraída e recordar-me de um momento em que estavas presente. uma memória completamente rebuscada e desinteressante, em que eu te vi apenas através de um vidro. estavas abatida e eu cravada de preocupação, apavorada com os rumores que circulavam entre corredores. porém, não havia maneira de chegar até ti. nunca há. temos esta barreira invisível que sempre nos separou, e o tempo tratou de nos colocar em lugares diferentes.
não falo sobre ti, senão com quem partilha a minha vida. hoje abri uma excepção porque não me entendo entre laços. juro que os cortei e ainda assim tenho estas horas de viagem ao passado que me trazem as tuas palavras e o teu carinho.
mas ela é sábia e lê as palavras dos poetas, e desconfia que eu ainda não aceitei a tua ausência. eu estou na corda bamba, entre a saudade e o desapego.
ela entende que não há como fugir à gratidão.

...

temo que o pior esteja para vir e fico mais ansiosa do que estava até aqui. não posso voltar a trabalhar em casa, pois sei que me vão cobrar e exigir tempo que eu não tenho. não sei como tens lidado com isto tudo, mas para mim é um caos. uma podridão absoluta que toma conta do mundo quando andamos mais preocupados com a produtividade do que com a sanidade. não asseguramos nada a quem trabalha, lá fora ou cá dentro, tiramos sempre mais, sugamos sempre mais. em vez de entendermos estes fenómenos como eventos perturbadores da nossa normalidade, desestabilizadores da nossa saúde mental, tentamos destruir com mais brutalidade o pouco que resta dos nossos irmãos. é verdadeiramente repugnante, esta indiferença com que nos olhamos e nos sentimos. não existem pessoas, existem máquinas descartáveis, que podemos desgastar até à inutilidade.
espero que não te sintas assim.
beijo enorme de alguém que se sente tão pequenina.