faz agora um mês que estou em casa. os dias repetem-se, uma lista infinita das mesmas tarefas sempre por cumprir. a casa parece esforçar-se para que não me falte ocupação por estes dias. são 03 da manhã e eu não quero dormir, não vá a doença irromper casa adentro e eu desprevenida a ressonar.
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arranjei esta noite para te escrever. deixei o papel e a caneta para trás, embora tivesse prometido ao meu professor de latim que nunca abandonaria estas ferramentas em detrimento do computador e do seu ecrã brilhante. cá estou eu, em frente à tela com o cursor a piscar, aproveitando a melancolia da madrugada para ouvir música e tentar dizer-te alguma coisa.
acho que me fazia bem criar um diário destes dias de isolamento. não é verdade que esteja isolada, temos tantos meios para nos mantermos em contacto, temos tantas pessoas, perto e longe, colos prontos a acolher o desespero que pode nascer por aqui. os dias são primaveris, é tempo de alegria, de sentir o sol queimar a pele, ver as plantas delirarem com a indecisão do céu, crescer entre as gotas de chuva e de sol.
pensamos agora em todos os momentos que deixámos por viver e queremos correr para os braços uns dos outros. imagino que podíamos ter ido tomar o tal café, sentar numa esplanada e discorrer sobre os novos desafios que a vida nos impõe. hoje essa memória seria mais uma saudade para me manter acordada, por isso vivemos nesta corda bamba do que não aconteceu e nos tira o sono, e do que se acontecesse nos deixaria insones.
não sabemos estar com as nossas dores. tenho dito que esta é a altura para fazermos as pazes, para nos reconciliarmos. mas isto é de uma dificuldade tremenda, sabes?
há quase 10 anos mergulhei numa espécie de isolamento, distante de todos quanto amo. saía para ir às compras e pouco mais, às vezes ia ao cinema. não sabia falar a língua dos que me rodeavam, arranhava muito ao de leve aquele ritmo. nesses meses perdoei as minhas fragilidades, remendei o passado, soube ficar em paz com tudo o que me deste e tiraste repentinamente. não me lembro sequer do que dizias, leio o que escrevi para ti e tudo perdeu o sentido.
as memórias que carrego agora são tão boas que me resta gerir esta sensibilidade extrema.
tento entender a profundidade a que me deixo tocar pelos outros. tento compreender porque é que no silêncio todas estas sombras se aproximam se não as amei.
é aqui que esbarro com esta incerteza. talvez tenha amado. é possível que ao consentirmos que nos vejam nus e nos agitem o corpo meio morto, estejamos a amar. são todas as nossas entranhas a ser remexidas, viradas do avesso, provocadas por uma pessoa só. bouleversée.
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já divaguei demasiado para uma primeira entrada de um suposto diário, com o seu quê de missiva dirigida à mesma pessoa de sempre, pois não sei dirigir as minhas palavras a mais ninguém. perdoarás, estou certa, este abuso a que te sujeito e que é, tão somente, de razão prática. és tu que te prestas a este papel literário e mais ninguém.
até amanhã.
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