terça-feira, 12 de abril de 2022

13.

 boa noite C.,

em abril fazia anos o amor da minha vida. planeava tudo cuidadosamente, tentava surpreendê-lo, comprava presentes caros para o mimar, achando que ele se sentiria amado, cuidado, acarinhado, dessa forma.

pelos vistos nem o amor que lhe dei, nem os presentes caros serviram para ele se sentir aconchegado comigo.

este ano não planeio dar-lhe qualquer presente. sinto-me subitamente desolada porque, pela primeira vez em 15 anos, não tenho vontade de surpreender a pessoa que, até há 1 ano, era o meu mundo. este dia de anos é mais um evento para me lembrar que perdi o homem que mais amei, que a vida nunca vai ser igual.

sinto-me muita vez culpada por pensar mal dele. por pensar que se ele não me respeitou, se não valorizou o que tinha e o que eu lhe dava, então daqui para a frente não terá mais de mim. mas uma relação não sobrevive a este desgaste, não aceita um deserto de afectos. 


querida C., não sei se algum dia voltarei a amar.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

12

 Olá C.,

Deixei-te em fevereiro e não pensei mais nestas cartas. Conheci tanta dor neste último ano. 

Voltei a gerar vida, perdi o amor da minha vida, nasceu a felicidade mais profunda, fiquei internada após o parto e sinto que não estive longe do fim. Continuo doente e serei operada em breve.

Estou muito cansada. 

De tudo o que mais me dói é tê-lo perdido. É irrecuperável. No minuto em que a vida se estilhaça, não mais se recompõe. Eu queria ser artesã, queria ter o dom de soprar o vidro quente e moldá-lo numa nova forma. Uma nova vida. 

Perde-se o amor e perde-se o amigo. Perdemo-nos também. Já não falamos com bondade. Todas as histórias de amor nos parecem falsas, como se fosse possível alguém amar tanto ao ponto de respeitar o outro. Ficamos cínicas. Deixa de existir abrigo, então fechamo-nos sobre nós próprias. Olhamos com frieza para tudo. 

O afecto dele já não nos desperta qualquer emoção. A vida segue numa calma profundamente triste. A cada beijo sabemos que nada restou de uma mágoa tão grande. 

Como e porquê amar alguém que nos tirou tudo, de um momento para o outro? Que nos abandonou, grávida e com uma luz de ano e meio. Fui dura, não mostrei uma única lágrima, não me lamentei, não espalhei a minha miséria. Aguentei-me firme, engolindo tantas vezes a dor, para sobreviver. Com medo de transmitir esta dor tão lacerante, nutrindo a placenta de raiva e amargura. 

Mas a vida não pára e corre velozmente. Estarei eu, daqui a 10/20/30 anos, amarga, a questionar-me porque arrastei esta situação, a perguntar-me porque desperdicei tantos anos com alguém tão desrespeitador da minha dignidade?

Quando surgirão palavras bondosas, quando me oferecerei essa ternura? Para já, sou a mulher fraca que renunciou à sua força, que sacrificou a sua felicidade, para ter o que idealizei. Para ter a família, os filhos a crescer com o pai em casa, para ter uma vida a quatro como imaginei. Viverei para sempre sem amor, fugindo dos beijos e do carinho, e sem me amar também? 

Esta pessoa tirou-me tudo. Sempre lhe disse que amava imenso os meus filhos, mas a minha vida era ele. Sem ele, sem direito a ser respeitada, traída, em quem poderei eu confiar, se a minha vida escapou? Tirou-me o passado, tirou-me o futuro. Nele, não sei se conseguirei confiar novamente, se me apaixonarei novamente. A outra pessoa não me posso e não me quero confiar. Era ele que eu queria. Era o amor que eu tinha e que amava profundamente que eu queria. 

Só ele. E ele já não existe.