uma das divisões desta casa, à qual chamamos biblioteca, tem umas janelas grandes, que vão quase desde o tecto até ao chão. ao fim da tarde, o sol desce e dá-nos uma luz muito bonita, uma sombra laranja que cobre a madeira rente ao vidro.
há jantar a essa hora, resguardada mas recebendo, e sendo inspirada por, toda essa iluminação. foi balbuciando entre colheradas que, subitamente, me lembrei dela.
bastou uma palavra: grande. assim que a pronunciei, dei por mim fechada naquela sala minúscula, depois de ter almoçado sem vontade o meu prato favorito, cozido à portuguesa, a olhar para as minhas mãos e a ouvi-la. tudo o que ela dizia, era com tal convicção... qualquer pessoa acreditaria naquelas frases benditas, banhadas de optimismo luzidio. eu não lhe dei ouvidos, e até me esqueci dessa tarde, de tal modo que quando a memória pousou nos meus olhos, não soube de onde, de que ano, em que vida, a tinha ido buscar.
passou mais de uma década. sem salas minúsculas, eu partilhando as minhas conquistas com uma figura frequentemente ausente. com ela aprendi que há pessoas que só podemos amar olhando para trás. temos somente passado.
Ne me demandez pas pourquoi
Quand vient l'hiver et le grand froid
On voudrait tous mourir
Comme si c'était la première fois
Que la nuit tombait, dans nos bras
On voudrait tous partir
Retrouver le soleil
Qui nous manque
Qui va brûler toutes nos peines
...
tenho pensado em escrever sobre ele, mas não podia enquanto não partilhasse este momento absolutamente surreal que me aconteceu há dias. juro-te que não me lembrava de estar contigo nessa tarde, e pesou tanto no meu peito essa recordação inesperada. meu Deus, como eu gostava de viver tudo outra vez e estar lá, ouvir-te de novo, absorver cada palavra. só me lembro de uma frase.
queima, queima, como o sol.
sobre ele, conto-te noutro dia desta quarentena, que se estenderá por mais um mês, se tudo correr mal.
não me leves a mal. nada senão gratidão.
beijo
Sem comentários:
Enviar um comentário