quinta-feira, 28 de maio de 2020

4.

finalmente o isolamento está a terminar, aos poucos. estamos agora mais seguros para passear, para tentar viver uma vida a meio-termo, sair para trabalhar e pouco mais. começamos a ver uma luzinha ao fundo do túnel. eu tento ficar o mais que posso em casa, mas já vou saindo para necessidades muito específicas. tenho horror a deslocar-me a serviços de saúde, mas tenho mesmo de o fazer e ganho sempre alguma coragem para enfrentar mais um vírus que nos vem virar a vida do avesso. o meu medo é contaminar alguém que amo e que não quero ver sofrer. já tenho a minha quota-parte de culpa nesse jogo, e sei que é inevitável mas é uma cruz que carregamos. se algo trágico acontecer, rebentamos com a nossa saúde mental e, por isso, tento resguardá-la também.
dei por mim a pensar, há uns dias, porque é que hei-de continuar a fixar as minhas emoções nestas pessoas, se algumas me deram dor e horas de desespero e choro no chão, e atiraram a minha sanidade contra a parede.
o perdão serve para as tirar do pedestal em que as coloquei, para retirar o vazio que a ausência delas me deixa, e a memória para saber que nunca mais as terei ao meu lado como, por vezes, gostaria.
no meu décimo oitavo aniversário, ele escreveu-me um texto de ir às lágrimas, absolutamente comovente, e eu senti cada palavra e soube que aquela pessoa me conhecia plenamente. éramos como irmãos, que nunca tivemos.
falávamos pela noite toda, naquela fúria adolescente de contar o pouco que vivemos até então.

muitos anos depois de eu o ter afastado, numa conversa informal sobre problemas quotidianos, ele disse-me que havia qualquer coisa em mim que não estava bem. não sei descrever a sensação com que recebi aquela preocupação. não lhe menti e ele tranquilizou-me. tive, de novo, o porto seguro que desprezei, pela mágoa.

temos trocado algumas mensagens e as nossas conversas alongam-se. agora os assuntos são banais, a nossa vida já não é tão curta e somos velhos amigos distantes que se cruzaram, de novo.

Oh je voudrais tant que tu te souviennes Des jours heureux où nous étions amis En ce temps là, la vie était plus belle Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui Les feuilles mortes se ramassent à la pelle Tu vois je n'ai pas oublié Les feuilles mortes se ramassent à la pelle Les souvenirs et les regrets aussi

...

tenho sonhado contigo, e fico sempre com esta sensação cruel de não ter como reviver nenhuma parte da minha vida. não somos um jogo de uma qualquer consola, onde podemos voltar atrás e reproduzir os nossos feitos, e reparar alguns danos. lembro-me da primeira vez que te vi, após meses de distância, e do teu ar de espanto e alegria. como eu estava feliz por te ver também! mas era tão nova e tudo estava tão fora do meu controlo, todos os meus sentimentos eram selvagens e desordenados. numa das marés, eu fiquei sem pé. 


tenho saudades e queria ter sido mais sensata. 

beijo enorme