quarta-feira, 18 de novembro de 2020

10.

 olá C.,

nem sei por onde começar. talvez pelo banal - trabalho presencialmente semana sim, semana não. já te disse que os transportes me angustiam imenso? penso que sim. em todo o caso, não tenho espaço mental para explorar todos os cenários possíveis de contágio em que me insiro. oiço a minha música, leio o meu livro, e evito olhar nos olhos do bicho. pode ser que ele fuja de mim.


estou a ler um livro que propõe uma série de reflexões muito interessantes sobre a memória. a memória colectiva e a individual. a inventada e a real. a que herdamos, a que vivemos e a que deixamos às gerações futuras. 

é um dos meus temas preferidos, não fosse eu tão refém das minhas próprias memórias. 


há uns dias procurava, nas conversas virtuais que tive, uma fotografia que tirei num dos meus locais de trabalho. estava exausta nesse dia, ainda a lidar com uma depressão que se agravou devido a uma sucessão de desilusões muito marcantes, e decidi guardar aquele instante. gosto muito dessa fotografia. tenho uma mão a tapar a cara, umas argolas muito grandes que usava na época, um ar de absoluto cansaço. 

não cheguei a encontrar a fotografia nesse dia. porém, descobri um pequeno texto que ela me dedicou, há alguns anos. imediatamente, uma onda de nostalgia que me arrasta. um conjunto de sensações, quando olho para trás tenho medo de me aproximar dela e, ao mesmo tempo, quero confiar-lhe tudo. 

saltei desse texto, para uma mensagem que ela me enviou. li a última frase da missiva tantas vezes, talvez tenha chorado. há muitos anos que uma pessoa não me fascinava tanto, há muitos anos que uma amizade não me assustava tanto. 

via aquele texto e queria poder abraçá-la, agradecer-lhe por me ter dado palavras tão bonitas. 

em sintonia, neste preciso momento de leitura e de perturbação do espírito, ela envia uma nova mensagem. quase adivinhando, pressentindo, sabendo.

às vezes brinco com a ideia de ela ter sido posta no meu caminho, da existência dela ser mais que terrena, de já nos termos conhecido anteriormente. 


apesar de falar com ela quase todos os dias, tenho saudades dela. também tinha saudades tuas. e tenho saudades do meu filho quando era bebé, quando disse a primeira palavra, quando começou a gatinhar, quando caminhou há um mês. 

tenho saudades da minha adolescência. de o conhecer, de me apaixonar, de amar tanto e tão profundamente, das nossas manhãs, das nossas noites, das férias de verão. 


estrondosa velocidade a que o tempo passa, e pesa. 


que estejas bem nesse cantinho da memória que te reservei. 

um beijo enorme


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