quarta-feira, 10 de junho de 2020

6.

quem diria que após todos estes anos, eu ainda ficaria comovida com as memórias que ficaram aqui retidas.
decidi ser eu a construtora de um novo mundo, pegar nas ferramentas e refazer os caminhos que já existiram. 
escrevi-lhe, com tanto tempo pelo meio, sem saber bem o que lhe dizer. tentei escolher entre a minha preocupação pelo seu bem-estar, referir o que partilhou comigo... e ousei arriscar o silêncio. não fui capaz de mencionar as confissões que me perturbam até hoje e com as quais não soube lidar.

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noutra casa, já não habita ninguém. não preciso de procurar, o telefone não chama. fico a lembrar-me desses olhos castanhos claros transparentes, cheios de vida e de palavras que não me conseguiste dar. 
é com um arrepio que contemplo a coincidência de a ter visto, uma última vez, antes do covid-19 nos varrer para dentro das nossas habitações. 
há mais de uma década que conhecíamos apenas as nossas vozes. 

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a distância que sempre existiu parece ferir até à agonia, durante a pandemia. 
é um processo que ainda não compreendo. e elas desapareceram. 
não sei como voltar a elas. não sei.


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